Certa vez, o Rav Menachem Mendel de Riminov recebeu de presente uma mesa muito boa e muito cara.
Seu filhinho começou a correr em volta da mesa com um amiguinho, como costumam fazer as crianças.
Quando o amiguinho estava correndo atrás do filho do tsadik, bateu a cabeça em uma das pontas da mesa e começou a chorar.
Embora tenha logo parado de chorar e tenha voltado a brincar alegremente, o tsadik mandou que cortassem as pontas daquela mesa cara, para que não houvesse mais perigos em sua casa.
Quando o Rebe Anterior, Rebe Yosef Yitschak Schneersohn, o Rebe Rayats, chegou aos Estados Unidos, no início dos anos 40, ele tinha um médico que costumava ir a sua residência e lhe aplicar injeções para tratar sua paralisia. Ficaram amigos, e o médico costumava visitar o Rebe só para conversar.
Em uma dessas visitas, o médico percebeu um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro. Naquela época, o Rebe anterior fumava muito. O médico, então, mencionou que uma pesquisa recente parecia indicar que fumar fazia mal à saúde. Isso aconteceu muito antes disso tornar-se conhecimento público.
Mas tarde, enquanto conversava, o médico, que era fumante, pegou um maço de cigarros e ofereceu um ao Rebe. O Rebe recusou, dizendo. “Não fumo.” O médico ficou surpreso, e o Rebe explicou. “Você me disse, há menos de meia hora, que não é saudável fumar. Portanto, não fumo.”
Teshuvá é isso. Ao perceber que era errado, acabou. Tornou-se de imediato, fora de questão. A partir daquele momento ele não fumava mais. Não houve “É mesmo? Tenho de parar? Não posso fumar nem mais um cigarrinho?” Ou “Talvez eu possa ir reduzindo aos poucos?”
Quando o Rebe falou: “Não fumo”, ele quis dizer: “Estou livre.”
Este é o verdadeiro significado de livre arbítrio: Posso me libertar. Sou livre para assumir qualquer identidade que eu quiser. Posso optar por me ver tendo o caráter e a capacidade que me façam bem.
Teshuvá não é ficar deprimido, achando-se um lixo.
Teshuvá é recalcular a rota, modificar nossa autoimagem – e com alegria!
Neste Shabat abençoamos o novo mês de Elul, um mês auspicioso que tem uma dimensão singular. Pois durante este mês, D-us está mais próximo de nós e nos proporciona uma capacidade extraordinária para a teshuvá – “retorno”.
Como toda porção do Torá tem relação com a época do ano em que é lida, vamos examinar a ligação entre o mês de Elul e a porção daTorá que lemos neste Shabat.
Parashat Reê inicia-se com as palavras: “Veja! Este dia Eu dou a vocês uma bênção e uma maldição.” Cada uma das palavras desse versículo contém uma alusão à natureza especial do Serviço do mês de Elul, e à ajuda Divina que recebemos para realizá-lo.
“Veja!”: A primeira coisa que um judeu deve fazer é abrir os olhos. Nosso sentido da visão nos proporciona uma verificação dos fatos muito mais definitiva que o sentido da audição. Quando um indivíduo vê algo com os próprios olhos, não pode ser dissuadido. O Serviço Divino de um judeu deve ser realizado com o mesmo nível de confiança e convicção.
Mas como podemos nós, meros seres humanos vivendo num mundo material, chegar a esse nível? D-us nos dá a resposta na palavra seguinte do versículo:
“Eu” (Anochi): A palavra “Anochi”está relacionada com a Essência de D-us, um aspecto da Divindade que é mais elevado que Nomes. O motivo pelo qual conseguimos atingir essas alturas espirituais é que a capacidade para isso origina-se nessas Fontes altíssimas. A Torá prossegue:
“Dou”: D-us nos dá esta ajuda Divina de acordo com o princípio de “Ele que dá, dá generosamente”; Suas dádivas são concedidas de boa vontade e em grande abundância.
“Para vocês” (“lifneichem”): Esta palavra está relacionada com a palavra em hebraico “penimiyut”, que significa “dentro” e “no interior”. O impulso especial que recebemos de D-us em Elul não é superficial, abrange a totalidade e a essência do judeu e o capacita a ligar-se com D-us no mais profundo dos níveis.
“Este dia”: Para que ninguém pense que essa assistência Divina só é concedida uma vez, a Torá nos diz que a ajuda de D-us é contínua, possibilitando-nos servi-Lo com forças renovadas em cada um dos dias do mês.
E como devemos utilizar adequadamente essa dimensão maior em nosso Serviço?
“Uma bênção e uma maldição”: Isso se refere ao cumprimento dos mandamentos positivos da Torá e evitar suas proibições.
Direcionar nossa maior capacidade de retornar a nossa fonte nessas duas direções trará, como resultado, um ano bom e doce e uma boa inscrição no Livro da Vida.
Certo ano, quando o Tsêmach Tsêdek (Rabi Menachem Mendel de Lubavitch) concluiu seu discurso na véspera de Rosh Hashaná, disse para seus chassidim:
“Hoje precisamos nos preparar para nos dirigir a D-us, a Quem dirigimos nossas preces como ‘nosso Pai, nosso Rei’. Um pai gosta de ver um coração puro; um rei gosta de uma roupa limpa.”
O Rebe em seguida explicou que a missão Divina adequada para a ocasião do Ano Novo era para que cada um purificasse seu coração e limpasse suas “roupas” – os três meios de expressão – pensamento, fala e ação. E continuou:
“Cada pessoa é acompanhada por dois anjos. Quando, após as preces da noite de Rosh Hashaná, os anjos escutam cada pessoa desejar sinceramente a seu próximo: ‘Que você seja inscrito e selado para um ano bom’, eles sobem e aparecem como advogados de defesa na Corte Celestial. Lá, pedem para que os que desejaram bons votos tenham um ano bom e doce.”
E o Rebe concluiu suas palavras com a bênção:
“Que todos vocês sejam inscritos e selados para um bom ano.”
Trecho de uma carta do Rebe para o farmacêutico Morris Milstein de Crown Heights:
“Quanto à questão da parnassá e a repercussão imediata no lucro da loja, quando ela ficar fechada no Shabat e Yom Tov, o que importa… não é a quantia de dinheiro ganha e sim como ele será utilizado. Pois qualquer pessoa sensata preferiria ganhar menos, mas usar os rendimentos para coisas saudáveis e felizes, em vez de ganhar mais e gastá-lo, que D-us nos livre, para médicos e coisas assim, quando além da despesa há a aflição e a dor, que D-us nos livre. A conclusão é que se deve levar em conta que dinheiro ganho de um jeito que contraria a Lei Divina não pode ter uma finalidade útil, e o ganho aparente não passa de ilusão, ou coisa pior. Portanto qualquer que seja o aspecto considerado, religioso, moral, econômico, nada justifica manter sua loja aberta no Shabat e no Yom Tov, tampouco pode servir a seus melhores interesses. Por outro lado, respeitar a Lei Divina lhe trará mais bênçãos Divinas para boa saúde e prosperidade, materiais e espirituais.
Na época do Alter Rebe (o Rav Schneur Zalman de Liadi, autor do Tanya e do Shulchan Aruch) houve uma mulher que durante mais de dois anos não conseguiu purificar-se. A sheeilá (“pergunta”), que ficou famosa, foi apresentada a muitos dos grandes rabinos da época e todos eles a consideraram impura.
Quando a sheeilá chegou diante do Alter Rebe ele disse:
“Embora de acordo com a Lei Judaica, atualmente não sejamos peritos em manchas de sangue, neste caso estou certo de que se trata de sangue de pombo.”
O Alter Rebe aconselhou ao pai da mulher que quando chegassem seus dias de purificação ela fosse morar em outro lugar, distante da família. E deveria ficar fechada em seu quarto. Ninguém poderia visitá-la, exceto seus pais. E ninguém deveria saber de seu paradeiro. E quando fosse ao mikvê, deveria ir com sua mãe, e numa hora em que não houvesse lá nenhuma outra mulher.
O pai da mulher seguiu à risca as instruções do Alter Rebe. E para grande espanto da mulher e de sua mãe, quando chegou a época de sua purificação tudo estava normal e ela imergiu no dia certo. Como, porém, seu marido era muito especial em Torá e temor a D-us, ficou desconfiado e resolveu esperar até o mês seguinte.
Naquele verão, teve início uma epidemia de cólera nos arredores de Mohilev e os rabinos divulgaram medidas para evitar que a epidemia se alastrasse e, de passagem, despertaram a população para a teshuvá e o arrependimento por pecados entre o homem e D-us e entre o homem e seu semelhante. Muitos dos habitantes da cidade ficaram com medo. E eis que uma mulher foi procurar o rabino e contou-lhe, arrependida e chorando muito, sobre o pecado que cometera contra aquela mulher, fazendo-a sofrer durante dois anos sem conseguir purificar-se.
E foi esse o teor de sua confissão: quando ela era jovem, foi-lhe sugerido um shiduch com o marido daquela mulher. Por motivos diversos, o shiduch não se realizou e ela acabou casando com um homem muito simples. Desde então, ficou com ódio daquela mulher e resolveu vingar-se dela. Para isso, fingiu ser sua amiga e, quando chegavam seus dias de purificação, matava uma galinha ou um pombo e sujava de sangue as roupas da mulher.