A maldição do tsadik oculto e a berachá do Rebe Shlita

Reb Leib Friedman contou-me, certa vez, a seguinte história impressionante:

O Rosh Yeshivá da Yeshivá Chayê Olam, em Jerusalém, sofreu, durante muitos anos, de problemas nas pernas. A doença foi piorando, até que ficou preso à cama. Os médicos insistiam que uma perna deveria se amputada. Se não adiantasse, a outra teria de sê-lo também. 

Em 1954, um de seus filhos casou-se. Centenas de rabinos e alunos de yeshivá estavam presentes no casamento. O Rosh Yeshivá pediu para ser levado ao salão numa maca, para participar do feliz evento.

Durante a comemoração, várias pessoas fizeram discursos, oferecendo palavras de Torá e abençoando os noivos. O Rosh Yeshivá também desejava falar. Como estava por demais fraco, não conseguindo nem mesmo se sentar, pediu silêncio absoluto, para que suas palavras fossem ouvidas. Quando todos calaram-se, iniciou sua história:

“Quando eu era jovem, fui para a yeshivá na cidade de Stuchin. Éramos trinta em toda a yeshivá, cujo local de estudo era a sinagoga local.

“Em Stuchin vivia um bêbado, a quem todos chamavam de ‘Itche Der Shiker’. Itche era famoso por seu mau hábito de beber até cair, acordar e beber de novo, e adormecer novamente. Ninguém sabia onde Itche morava. De fato, ninguém queria nem saber. Seus únicos amigos eram as crianças, que lhe falavam durante os raros momentos em que estava acordado. Itche encontrava-se quase sempre na sinagoga, onde os alunos da yeshivá também passavam a maior parte do tempo.

“Numa noite de inverno, estávamos sentados estudando, como de costume. Itche dormia sobre um dos bancos. De repente, a porta se abriu e entrou um cocheiro, muito nervoso e desesperado. ‘Rápido!’ gritou aos espantados bachurim (rapazes). ‘Vocês precisam me ajudar. Minha carroça carregada acaba de virar em cima do meu cavalo. As rédeas estão enroladas em volta do pescoço do animal. Se não desvirarmos a carroça imediatamente, o cavalo vai morrer enforcado! Por favor, venham me ajudar – não posso faze-lo sozinho’, implorou.

“O homem estava lá parado, enquanto nós discutíamos os prós e os contras de abandonar nossos estudos para ajudá-lo: será que era permitido interromper os estudos? No fim, chegamos à conclusão que negligenciar nossos estudos era um pecado grave demais para arriscar. Ficamos na sinagoga e continuamos a estudar. O coitado do cocheiro saiu irado e amargurado.

“De repente, Itche levantou-se de seu cochilo e disse, ‘Bachurim! Vão imediatamente ajudar aquele judeu, antes que seu cavalo morra! Se não forem, nunca mais caminharão sobre suas próprias pernas.’

“Eu lhe disse brincando: ‘Itche, desde quando você decide questões haláchicas?’ Ele me ignorou e não disse nada. Cerca de meia hora mais tarde, o desesperado cocheiro voltou, implorando, em termos mais enfáticos ainda, que fôssemos ajudá-lo. Procurara ajuda em toda parte, mas não encontrara ninguém que pudesse faze-lo. Tivemos mais uma discussão sobre se devíamos ou não ir, e dessa vez chegamos à conclusão que era, de fato permitido. Saímos da sinagoga e seguimos o cocheiro, mas chegamos tarde demais. O cavalo já estava morto.

“No dia seguinte, na sinagoga, Itche me chamou pelo nome. Eu ainda não tinha chegado, mas assim que entrei meus colegas me disseram que Itche queria falar comigo. Eu o encontrei no seu banco de sempre e lhe indaguei o que queria. ‘Ouça,’ disse. ‘Tenho algo a lhe pedir. Hoje à noite vou morrer, e não quero estar só. Gostaria que fosse à minha casa e estivesse comigo quando minha alma partir.’

“Comecei a rir. Pensei que estivesse apenas brincando, mas ele repetiu o pedido. Perguntei onde morava, e ele descreveu uma velha ruína na periferia da cidade, que lhe servia de casa.

“Quando anoiteceu, resolvi que eu bem que poderia ir à casa de Itche, pois estudaria lá do mesmo modo que na sinagoga. Peguei minha Guemará e me dirigi à cabana de Itche.

“Quando lá cheguei, encontrei Itche deitado numas tábuas, dormindo. Sentei-me num caixote quebrado, abri a Guemará e comecei a estudar. ‘O que estou fazendo aqui?’ pensei comigo mesmo, após várias horas. ‘Como me permiti cair numa dessas?’ Resolvi ir embora, mas assim que me levantei, Itche acordou. ‘Não vá embora!’ disse. ‘Volte a sentar. Vou morrer exatamente às quatro horas da manhã. Quero que diga à Chevra Kadisha que desejo ser enterrado junto ao Rabi fulano de tal.’ Itche citou um importante erudito, um tsadik e gaon que estava enterrado no velho cemitério judaico.

‘Por que está dizendo essas asneiras?’ falei. ‘Você nem ao menos põe tefilin, e quer ser enterrado junto de um tsadik desses?’

‘Por que você está dizendo que eu não ponho tefilin?’ Itche disse. ‘Lá no canto há um baú. Olhe lá dentro e encontrará meus tefilin.

“Fui até o baú e o abri. Para meu grande espanto encontrei um belíssimo par de tefilin, kasher acima de todas as exigências da halachá. Se eu não os tivesse visto com meus próprios olhos, jamais acreditaria que pertencessem a Itche. ‘Mas mesmo que eu diga à Chevra Kakisha onde você quer ser enterrado, não vão me escutar,’ protestei. ‘Debaixo do baú  com os tefilin há uma caixinha,’ disse Itche. ‘Lá você vai encontrar todos os meus escritos e manuscritos. Se os mostrar à Chevra Kadisha, ela atenderá ao meu pedido.’ Abri a caixa e examinei seu conteúdo. Uma rápida olhada mostrou vários tratados esotéricos cabalísticos, contendo conceitos, muitos dos quais me eram incompreensíveis. Uma coisa, porém, era certa: o homem que jazia naquela decrépita cama de madeira era um tsadik oculto.

“Exatamente às quatro da manhã ele expirou. Depois que ele morreu, corri imediatamente para falar com o Rav e a Chevra Kadisha, conforme sua orientação. Contei-lhes a história toda, e levei comigo a caixa com os manuscritos para apoiar minhas palavras. Havia apenas um problema: a Chevra Kadisha afirmava que não havia mais lugar no velho cemitério. Há muitos anos os mortos da cidade estavam sendo enterrados no novo cemitério, por falta de espaço no  velho. Contudo, fomos verificar. Ficamos chocados ao descobrir que realmente havia lugar para Itche ser enterrado – bem ao lado do rabino que ele mencionara!

“A cidade inteira ficou em polvorosa com a história incrível e espantosa. Fizeram para Itche um grande e pomposo funeral, em que estiveram presentes a maior parte dos judeus importantes da cidade, que foram prestar-lhe as últimas  homenagens.”

Àquela altura do discurso, o Rosh Yeshivá começou a chorar. Grandes soluços, de cortar o coração encheram o salão do casamento. “Não tenho dúvida”, disse ele ao se recompor, “que meus longos anos de sofrimento e invalidez foram conseqüência direta  da maldição daquele tsadik oculto.”

Ninguém conseguiu conter as lágrimas. Os convidados ficaram com muita pena do Rosh Yeshivá. A alegria do casamento foi esquecida diante da triste história.

Eu estava presente na festa. Durante muito tempo, não consegui tirar a história da cabeça. Como eu me correspondia com o Rebe de Lubavitch, resolvi mencionar o Rosh Yeshivá em minha próxima carta. Pedi ao Rebe para rezar pelo infeliz judeu e lhe dar uma berachá para que recuperasse a saúde.

Pouco tempo depois recebi uma resposta: Diga ao Rosh Yeshivá que ele deve aceitar sobre si o estudo das porções diárias de Chumash, Tehilim e Tanya, conforme instituído pelo Rebe anterior. Além de estudar esses capítulos, escreveu o Rebe, ele deve cuidar para que todos os que se encontram sob sua influência façam o mesmo (o Rosh Yeshivá adquirira um grande número de seguidores, com o passar dos anos). Pelo mérito de “andar no caminho do Rebe anterior,” D-us Todo-Poderoso o abençoará com a habilidade de andar literalmente também, escreveu o Rebe.

Fui imediatamente visitar o Rosh Yeshivá, para mostrar-lhe a carta. Ele ficou absolutamente submisso. Ficou tão feliz e empolgado, que beijou o pedaço de papel. Como a carta era endereçada a mim, pedi que me devolvesse, mas ele implorou que a deixasse com ele, ao menos temporariamente, o que fiz.

Cerca de seis meses depois, quando de minha próxima visita ao Rosh Yeshivá, ele estava sentado à sua escrivaninha. Os médicos já não falavam em amputação, falavam apenas de seu progresso e reabilitação. E seu estado continuou a melhorar.

Quando a história do Rosh Yeshivá tornou-se mais conhecida, muitos chassidim foram a Jerusalém, falar com ele pessoalmente. Ele pediu a cada visitante que estudasse as porções diárias de Chumash, Tehilim e Tanya, por causa dele, para assegurar-lhe saúde duradoura.

Do livro Extraordinary Chassidid Tales, do Rabino Rafael Nachman Kahan, Vol. 2, págs. 65-71. 

Reimpresso com permissão do “Likrat Shabat on line” da Yeshivá Tomchei Tmimim.

1 Response so far »

  1. 1
    Avatar de Suzanne

    Suzanne said,

    Oi Flora!
    Parabéns pelo blog!!!
    Um dvar Torah antes de começar a trabalhar dá força para o dia todo.
    Shcoiar!


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