O Julgamento

 

 

Certa vez, Rabi Mordechai de Nadvorna, um grande líder chassídico, estava em uma longa viagem de trem com muitos de seus discípulos. O trem parou na cidade de Niridihous, onde deveriam fazer baldeação a fim de chegar a seu destino. Esperavam há vários minutos quando, de repente, uma jovem não-judia começou a gritar e chorar, atraindo a atenção tanto dos passageiros quanto da polícia. Ao que parece, roubaram-lhe a carteira, onde estavam seu dinheiro e a passagem de trem.

Em geral, era melhor que os judeus não se intrometessem nos assuntos dos não-judeus, principalmente nesse caso, em que a polícia procurava suspeitos. Foi, portanto, meio estranho quando Rabi Mordechai voltou-se a um dos mais jovens de seus chassidim e o mandou ao guichê comprar uma passagem para a mulher. Disse ao chassid que lhe desse também algum dinheiro para a viagem, sem dizer uma palavra sobre de onde vinha a pecúnia.

O chassid obedeceu e a mulher, espantada, ficou literalmente muda de gratidão. Passaram-se quinze anos. O chassid casou-se e teve filhos, o santo Rebe faleceu e o incidente foi totalmente esquecido.

O chassid tornara-se um bem sucedido empresário e tinha até amigos não judeus em altos postos. Certa manhã, recebeu uma intimação para apresentar-se em juízo, acusado de fraudar o governo. As acusações eram obviamente falsas, estava na cara que as testemunhas tinham sido pagas, mas isso em nada ajudava. Percebeu, de repente, que não tinha nenhum amigo verdadeiro, uma vez que ninguém estava disposto a auxiliá-lo. Correu de escritório em escritório e obteve as mesmas declarações e desculpas solidárias e vãs. Finalmente, contratou um advogado, rezou a D-us por um milagre e dirigiu-se ao tribunal.

A audiência durou menos de uma hora. Foi declarado culpado de todas as acusações e deveria ser detido até o julgamento. O chassid ficou desesperado. Pagou uma fiança e começou a procurar um advogado melhor. Mas nenhum quis aceitar seu caso.

Por falta de opção, resolveu viajar a Budapeste, onde morava o juiz que deveria julgar seu caso, na tentativa de encontrá-lo. Talvez conseguisse convencê-lo de sua inocência. Rapidamente arrumou sua mochila, levou consigo uma grande quantia em dinheiro e pegou o próximo trem.

Em Budapeste o chassid teve mais uma surpresa desagradável. Descobriu que o juiz era um anti-semita fanático. Não havia a menor possibilidade de que ele chegasse a olhar para um judeu, muito menos falar, e é óbvio que não teria a menor pena de um judeu.

Mas o chassid não se deixou abater, pois “tudo o que D-us faz é para o bem”, lembrou-se. De modo que deu umas voltas pela cidade, conversando com as pessoas, até que bolou um plano de ação. O chassid descobriu que a esposa do juiz adorava bordados finos, principalmente toalhas de mesa. Compraria a toalha mais cara que encontrasse e apareceria à sua porta, como se fosse um vendedor. Em seguida, se ela se interessasse, lhe ofereceria a toalha de mesa como presente e lhe pediria que tentasse influenciar o marido a seu favor.

Era um plano audacioso, e até meio bobo; ela poderia muito bem denunciá-lo à polícia. Mas não tinha outro jeito. O chassid passou a manhã toda procurando o mais primoroso bordado que houvesse em Budapeste até que, finalmente comprou uma toalha de mesa caríssima, realmente elegante, com guardanapos combinando. Dirigiu-se rapidamente à casa do juiz, tentando manter a calma. Subiu a escadaria que levava à porta, fechou os olhos, disse uma prece e bateu.

Foi a própria esposa do juiz quem abriu a porta. Olhou para ele de um jeito estranho. Ele tentou começar sua oferta de vendedor mas as palavras simplesmente não saíam. Ele tremia, paralisado de medo. De repente, a mulher deu um grito e desmaiou!

O primeiro impulso do chassid foi correr. Se ficasse lá seria acusado de alguma coisa. Mas se corresse e fosse pego, seria pior ainda!

Enquanto isso, o juiz ouviu o barulho e chegou correndo. Quando viu o chassid, espantou-se também. Baixou-se para cuidar da esposa, que recuperou a consciência, e perguntou-lhe: “Você está bem, Greta? O que houve?”

Ela abriu um olho, olhou em torno e, finalmente, apontou para o judeu. “Yorik, Yorik!” disse ela, levantando-se. “Lembra-se que lhe contei sobre cerca de quinze anos atrás, na estação de trem de Niridihous, quando perdi minha passagem e meu dinheiro e veio um anjo e me salvou? Bem, o rosto deste judeu… ele é a cara daquele anjo! É ele!”

Quando o juiz percebeu que aquele era o homem que salvara sua esposa, seu rosto mudou totalmente. Convidou o espantado judeu para entrar e lhe ofereceu uma recompensa. Quando soube do motivo da visita, prometeu-lhe um julgamento justo. É óbvio que o chassid foi absolvido de todas as acusações.

(Traduzido de “L’Chaim Weekly”, www.lchaimweekly.org)

Reimpresso com permissão do “Likrat Shabat on line” da Yeshivá Tomchei Tmimim. 

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