Archive for janeiro, 2010

O Rebe e o Psicólogo

 

 

 

Em 1995, uma senhora idosa elegantemente trajada entrou no escritório do Rabino Yakov Biederman, emissário do Rebe na Áustria. Apresentou-se como Marguerite Kozenn-Chajes, cantora de ópera aposentada, e primeira emissária do Rebe de Lubavitch em Viena! “Sei que o senhor acha que é o primeiro do Rebe aqui”, gracejou, “mas de fato, sou eu!”

A Senhora Kozenn-Chajes começou sua história. Seus ancestrais foram os santos Vishnitser rebes. Em sua juventude, deixou seu lar em Czernowits e foi para Viena, onde acabou tornando-se uma famosa cantora de ópera.

A Senhora Kozenn-Chajes atuou durante a década de ’30 no Salzburger Festspiele. Quando o exército alemão invadiu a Áustria e a conquistou, todos os artistas judeus foram proibidos de apresentar-se. De algum modo, a Senhora Kozenn-Chajes passou despercebida e chegou a cantar no Festspiele de 1939. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, amigos conseguiram contrabandeá-la para a Itália, e ela conseguiu pegar o último navio para os Estados Unidos. Ela e seu marido, descendente do famoso Maharats Chajes, fixaram residência em Detroit, Michigan.

Anos passaram-se. E a Senhora Kozenn-Chajes teve a oportunidade de ter uma audiência particular com o Lubavitcher Rebe. “Entrei no escritório do Rebe”, contou ao Rabino Biederman, “não sei por que, mas pela primeira vez, desde o Holocausto, senti que podia chorar. Como tantos outros que perderam todo mundo, eu jamais chorara. Sabíamos que se começássemos a chorar, talvez jamais conseguíssemos parar. Comecei a soluçar como um bebê.

“Contei tudo ao Rebe: sobre minha infância inocente, de como saí de casa, tornei-me uma estrela em Viena, apresentei-me diante de Hitler, fugi para os Estados Unidos, fiquei sabendo do assassinato de meus parentes e amigos. Também mencionei que tinha muita vontade de visitar Viena. O Rebe pediu-me que antes de viajar o visitasse novamente.

“Poucos meses depois, antes de ir a Viena, fui ao Rebe. Ele me pediu para visitar duas pessoas em Viena, e lhes transmitir lembranças dele. A primeira delas era o rabino-chefe de Viena, Rabi Akiva Eisenberg e a segunda era um professor universitário judeu, Dr. Frankl, na Unversidade de Viena. O Rebe pediu-me para dizer-lhe em seu nome para que não desistisse. Que ficasse forte e continuasse seu trabalho com entusiasmo e vigor. Se ele continuasse forte, venceria. O Rebe falou assim durante bastante tempo.

“Quando cheguei a Viena, foi fácil encontrar o Rabino Eisenberg, mas encontrar o professor foi muito mais complicado. Quando cheguei à universidade informaram-me que há duas semanas ele não aparecia lá e negaram-se a fornecer informações mais detalhadas. Resolvi ir até a casa do professor.

“Uma mulher abriu a porta. Perguntei se o professor estava em casa. Instantes depois, um homem de meia idade foi até a porta. Parecia muito tenso e fiquei muito constrangida. ‘Trago lembranças do Rabino Schneerson, do Brooklyn, Nova York’, disse-lhe.

“‘Quem é ele?’ Perguntou impaciente.

“‘O Rabino Schneerson pediu-me para dizer-lhe em seu nome para que o senhor não desista. Fique forte e continue seu trabalho sem vacilar, e vai sair vitorioso. Não se desespere. Tem de prosseguir com confiança, ele prometeu que o senhor vai ter muito sucesso.’

“O professor olhou para mim como se tivesse visto um fantasma. Arregalou os olhos, incrédulo. Começou a chorar, soluçando como uma criança. Eu não estava entendendo nada. Só vi que ele chorava sem parar.

“‘Não acredito!’ Dizia Dr. Frankl e fez sinal para que eu entrasse. Acalmou-se um pouco e disse: ‘Esse rabino do Brooklyn sabia exatamente quando mandá-la para cá. É um milagre! Você me salvou!’

“‘Sobrevivi aos campos de morte alemães’, exclamou o Dr. Frankl, ‘e até consegui manter meu espírito, lá. Mas não estava conseguindo sobreviver às zombarias e insultos impiedosos de meus colegas, que solapavam toda e qualquer tentativa que eu fizesse para seguir em frente.’ Na época, as idéias de Freud reinavam supremas e as do Dr. Frankl eram desprezadas como noções não científicas de consciência, fé e dever. Os alunos que freqüentavam suas aulas não eram bem vistos. ‘Eu estava esgotado e melancólico. Fiquei deprimido e resolvi pedir exoneração. Comecei a redigir meu pedido de demissão.

“‘E de repente aparece uma mulher, dando-me lembranças de um Rabino Schneerson de Nova York! Alguém no Brooklyn, nada mais nada menos que um Rebe Chassídico, está sabendo sobre mim! Sabe de minha dificuldade! É um milagre!’

“De fato”, concluiu a Senhora Kozenn-Chajes, “as palavras do Rebe realizaram-se. Dr. Frankl deu continuidade a seu trabalho e pouco tempo depois obteve uma cátedra na Universidade. Seu livro, “Man’s Search for Meaning” (“Em Busca de Sentido: um Psicólogo no Campo de Concentração”) foi traduzido para o inglês e ele tornou-se um dos mais famosos psicólogos da geração. Tudo isso aconteceu há uns 40 anos. Portanto, Rabino Biederman”, disse sorrindo a Senhora Kozenn-Chajes, “fui emissária do Rebe em Viena muito antes de o senhor chegar aqui.”

O Rabino Biederman ficou curioso. Começou a investigar e descobriu que Victor Frankl ainda estava vivo e, de fato, enviava uma doação anual para o Beit Chabad de Viena! Rabino Biederman telefonou para ele, apresentou-se e perguntou se recordava-se das lembranças que Marguerite Kozenn-Chajens lhe dera do Rabino Schneerson do Brooklyn, cerca de 40 anos antes.

“Não me lembro do nome da mulher, mas obviamente me lembro daquele dia! Jamais esquecerei. Minha gratidão ao Rabino Schneerson será eterna”, respondeu emocionado. “Foi por isso que quando Chabad-Lubavitch se estabeleceu aqui em Viena, tornei-me um dos doadores.”

Em 2003, Rabino Dr. Shimon Cowen, um chassid Lubavitch da Austrália, que também é especialista em Frankl, foi a Viena visitar seu genro e sua viúva, que é católica, e cujo nome de solteira é Eleonore Katharina Schwindt. Conversaram bastante e, quando Cowen perguntou sobre as práticas religiosas de Frankl, ela lhe mostrou um par de tefilin e tsitsit. “Meu finado marido colocava isso diariamente”, disse-lhe. “E também dizia Salmos, de noite na cama.”

Agradecimentos aos rabinos Yosef Y. Jacobson, Tuvia Bolton, Dovid Sholom Pape.

 

 Traduzido de “L’Chaim Weekly”

http://www.lchaimweekly.org/lchaim/#caption9

 

 

Nota da tradutora: Victor Emil Frankl (1905-1997) foi um psicólogo e psiquiatra austríaco, fundador da escola da Logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência, uma das dissidências da psicanálise freudiana e uma das muitas teorias sobre a motivação básica do comportamento humano. Passou por quatro campos de concentração entre 1942 e 1945. Durante os anos de cativeiro, Frankl observou o comportamento humano e concluiu que esse interesse o salvara e que os companheiros de prisão que tinham uma esperança e davam um significado à vida predominavam entre os sobreviventes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Isto é para o Casamento”

BS’D

A família Asulin, da França, tinha um sobrinho que de vez em quando a visitava no Shabat. Em uma dessas visitas, em Mar Cheshvan de 5751 (1990), o sobrinho falou que estava programando uma viagem aos Estados Unidos no futuro próximo. Os Asulin sugeriram que fosse ver o Rebe, e até arranjaram acomodações para ele em Nova York.

O jovem permaneceu durante todo o farbrenguen, apesar de não entender nenhuma palavra de Yidish. No final do farbrenguen, os que entregaram uma garrafa de mashke (bebida) ao Rebe antes do Shabat fizeram uma fila diante da mesa do Rebe (o mashke seria distribuído em diversas comemorações especiais). O jovem, que desconhecia os costumes do “770”, pensou que o Rebe estava distribuindo mashke para todos, e entrou na fila. Quando chegou sua vez, o Rebe entregou-lhe uma garrafa e disse, em francês: “Isto é para o casamento.”

De volta à França, o sobrinho relatou sua experiência. “Acho que o Rebe se enganou,” concluiu. “Pensou que ainda não sou casado, mas sou!” Os Asulin explicaram que o Rebe não se engana. “Você vai ver,” asseguraram-lhe. “Um dia vai entender o que o Rebe quis dizer.”

A garrafa foi posta num armário e esquecida. O tempo passou, até que um dia o homem viu a garrafa na prateleira e teve uma idéia.

“Veja”, disse à esposa. “É uma pena deixar isto guardado. Vamos fazer uma festa? Podemos convidar todos os nossos amigos e parentes, e oferecer o mashke do Rebe.

A mulher gostou muito da idéia. Marcaram uma data, e mandaram os convites.

Poucos dias antes da festa, a mulher pegou um vírus. “Como vou poder cozinhar para tanta gente?” perguntou ao marido. Como já não dava para cancelar o evento, o marido sugeriu que alugassem o pequeno salão de festas ao lado da sinagoga que freqüentavam. Encomendaram a comida num restaurante kasher lá perto.

A festa foi num domingo. Veio muita gente, e o ambiente estava alegre. De repente, no meio da refeição, o rabino da sinagoga entrou fazendo um pedido urgente.

“Desculpem atrapalhar sua festa, mas preciso de um minyan. Há um casal debaixo da chupá aqui ao lado, querendo se casar, e precisamos de alguns homens!”

É óbvio que os homens atenderam ao pedido com a maior boa vontade. Ao entrar no shul, porém, ficaram surpresos ao ver que estava vazio. Só os noivos estavam lá!

Os noivos casaram-se “de acordo com a lei de Moshê e Israel”. Depois de cerimônia, o anfitrião da festa perguntou aos recém-casados onde estavam planejando comemorar. “Na verdade, não programamos nada”, responderam hesitantes.

“Pois faço questão que vocês fiquem conosco aqui ao lado!” disse animado. “Estamos fazendo uma festa, e vocês estão convidados!”

A festa rapidamente transformou-se num festejo de casamento. Durante a comemoração, o anfitrião relatou a história da garrafa de mashke que o Rebe lhe dera e como, na ocasião, pensara que o Rebe cometera um engano. Só agora compreendera a intenção do Rebe ao dizer, “Isto é para o casamento”! Era um verdadeiro milagre.

Mas a história da kalá (noiva) foi mais miraculosa ainda. De fato, explicou, aquele era seu segundo matrimônio, o primeiro fora uma experiência muito desagradável. Quando se divorciou do primeiro marido, sua família ficou furiosa e jurou que não iria às suas segundas núpcias. Este marido era um convertido ao judaísmo, não tendo, portanto, família para convidar.

“Eu não sabia o que fazer”, explicou. “Queria muito me casar, mas havia tantos obstáculos! Resolvi escrever ao Rebe de Lubavitch, pedindo sua bênção. Também pedi que ele me desse um sinal que mostrasse que nosso casamento tinha sua berachá, e que no final, tudo daria certo.”

De fato, o sinal foi recebido no dia do casamento.

(Reimpresso com permissão do

“Likrat Shabat on line”

da Yeshivá Tomchei Tmimim)

Em homenagem ao noivado de Haya Mushka Benzecry e Menachem Mendel Assulin, de Paris / França.

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“Um estranho não se sentará em seu lugar”

Rav Michoel Vishetzky era um jovem que emigrara da Rússia para os Estados Unidos. Na Rússia, Rav Michoel atuara secretamente, esforçando-se muito para difundir o judaísmo. Ao chegar aos Estados Unidos, não se esqueceu das muitas pessoas com quem estivera em contato. Mandava pacotes de alimentos e roupas, para melhorar a precária situação econômica dos judeus russos. Para levantar fundos, ia de shul (sinagoga) em shul falar sobre as dificuldades dos judeus que ainda cumpriam a Torá e as mitsvot na Rússia. E em seguida pedia doações de alimentos e roupas.

Certa vez, Michoel viajou ao Bronx, em Nova York, para encontrar-se com o rabino de lá, Rabi Rabinowitz. O rabino combinou de encontrá-lo em um certo shul, mas quando Michoel chegou, encontrou lá apenas um homem baixinho, que estava sentado lendo um livro.

“Onde posso encontrar o Rabino Rabinowitz?” perguntou Michoel.

“Eu sou Rabi Rabinowitz”, respondeu o homem.

Michoel ficou curioso de saber por que o rabino estava sentado no canto direito da mesa, e não na cabeceira. Tampouco ele permitiu que Michoel sentasse na cabeceira da mesa. E foi muito firme quanto a isso.

“Ninguém se senta nesse lugar”, disse Rabi Rabinowitz. Ao notar o espanto de Michoel, disse:

“Quando você ouvir minha história, entenderá o motivo.

“Durante a Segunda Guerra Mundial, passei muitos anos difíceis, vagando de um lugar a outro, como tantos outros. A certa altura, na Rússia, encontrei alguns chassidim Chabad que me ajudaram muito. No verão de 5709 (1949), quando cheguei aos Estados Unidos, tive uma audiência particular com o Rebe Rayats (o Rebe Anterior, sogro do Rebe de Lubavitch). Relatei-lhe tudo o que me acontecera na Europa e perguntei-lhe aonde deveria ir e o que devia fazer com minha vida.

“O Rebe Rayats disse, ‘Como você é um erudito da Torá, deve procurar um emprego como rabino de uma comunidade.’

“Pouco tempo depois, fui indicado para um posto neste shul, aqui no Bronx. Visitei novamente o Rebe Rayats e pergunte-lhe se devia aceitar o emprego.

“O Rebe Rayats fechou os olhos durante alguns instantes e disse, ‘um shul é um shul, sendo, portanto, muito adequado, mas não gosto do shamash (ajudante da sinagoga).’

“Fiquei muito confuso com sua resposta. Perguntara ao Rebe Rayats sobre o posto de rabino, que não tinha nada a ver com o shamash. Por que ele chegara a mencioná-lo? O Rebe percebeu minha confusão, mas não mudou a resposta. Repetiu, ‘Um shul é um shul, mas eu não gosto do shamash.’

“As palavras do Rebe foram muito claras. Eu não podia perguntar mais nada. Quando eu já ia sair, disse-me para voltar dali a dois domingos. Voltei para casa e resolvi aceitar o emprego, e foi assim que me tornei o rabino do Bronx.

“Duas semanas depois, fui ver o Rebe, exatamente como ele me pedira. Quando cheguei ao 770 (Eastern Pankway, 770, Nova York, o quartel-general do movimento Chabad-Lubavitch),  uma enorme multidão estava na rua. Disseram-me que o Rebe Rayats falecera no Shabat, no dia anterior. Entendi que ele queria que eu estivesse presente no seu funeral.

“O tempo foi passando. Os membros da minha congregação estavam contentes comigo, e eu estava feliz com eles. Tudo parecia estar correndo bem, até que descobri que o shamash não estava satisfeito com meu trabalho.

“Após a morte do rabino anterior do shul, antes de minha chegada à comunidade, o shamash assumira muitas responsabilidades – tornara-se o rabino extra-oficial. Quando assumi meu papel, sentiu que eu o depusera, e começou a me causar problemas. De fato, tentava me fazer passar por um incompetente. No início, agia às escondidas, mas depois de certo tempo, começou a me sabotar abertamente. A situação acabou tornando-se insuportável.

“Quando não dava mais para agüentar, fui ver o Rebe de Lubavitch, que já assumira a liderança. Assim que entrei na sala, antes que eu conseguisse abrir a boca, o Rebe disse, ‘Meu sogro disse que um shul é um shul e que ele não gostava do shamash. Você deve continuar a ser o rabino do Bronx. Quanto às intrigas do shamash, dentro de pouco tempo ele vai ter de se preocupar com quanto tempo vai ficar no posto.’

“Fiquei espantado com as palavras do Rebe. Quando eu falara com o Rebe Rayats, não havia ninguém mais na sala, e eu jamais discutira o assunto com o Rebe. Em todo caso, perguntei como resolver a questão. O shamash estava lá há muitos anos. Tinha muita experiência. Não parecia haver jeito de despedi-lo.

“‘Tenho certeza,’ disse o Rebe, ‘que ele fará algo que vai causar sua própria demissão. Se você pegá-lo em flagrante, poderá despedi-lo.’ As palavras do Rebe me tranqüilizaram. (Dentro de pouco tempo vi que ele parecia ter o dom da profecia.)

“Voltei para meu trabalho. Certa noite, eu me revirava na cama, sem conseguir adormecer. Não conseguia tirar o shamash da cabeça. Ao raiar do dia, resolvi ir ao shul um pouco mais cedo que de costume. No caminho, encontrei o presidente e o diretor do shul andando na mesma direção. Fiquei surpreso de vê-los na rua tão cedo, mas antes que eu pudesse perguntar por quê, o diretor apontou para uma luz brilhando através de uma das janelas do shul. Aquilo parecia muito suspeito. Depois de conversar durante alguns minutos para decidir o que fazer, chegamos à conclusão de que tínhamos de descobrir o que estava havendo. Silenciosamente, abrimos a porta do shul e entramos.

“Demos de cara com uma cena chocante. O shamash estava perto da bimá (púlpito), segurando as caixas de tsedaká. Ele as estava esvaziando, e pondo o dinheiro no bolso. Estava tão concentrado no que fazia, que nem percebeu que estávamos perto dele. É óbvio que o despedimos imediatamente.”

Rabi Rabinowitz parou um pouco, antes de continuar sua história. “Passaram-se alguns anos tranqüilos e depois, algo ainda mais incrível aconteceu. Atrás do shul havia um açougue. A parede de trás do shul era também a parede de trás do açougue. Os negócios iam muito bem para o açougueiro, e a lojinha, logo tornou-se pequena para ele. Quando encontrou uma loja bem maior, quis vender a lojinha que ficava atrás do shul. Os membros da diretoria do shul ficaram muito satisfeitos, pois a congregação já estava grande demais para o shul, principalmente em Shabat e Yom Tov. Depois de negociações amigáveis, chegou-se a um acordo. A parede comum foi derrubada, e o shul foi ampliado. Toda a transação realizou-se sem contrato por escrito. O açougueiro parecia honesto e de confiança.

“Passaram-se alguns anos. O açougueiro prosperou, e seus negócios continuaram a crescer. Agora, sua nova loja já era pequena demais, e ele começou a procurar um depósito, ali por perto. Como não conseguiu encontrar nada, lembrou-se de que não fizera nenhum contrato legal com o shul. Não havia prova nenhuma de que vendera sua loja ao shul. De acordo com a lei, ele ainda era o proprietário do local.

“Sem o menor escrúpulo, esse açougueiro foi ter com a administração do shul, e pediu para que a loja lhe fosse devolvida! Os membros da diretoria ficaram horrorizados; haviam pago o preço combinado, integralmente. O açougueiro recusou-se a escutar seus argumentos. Contratou um advogado. Estava certo de que a justiça lhe daria ganho de causa, pois não havia contrato de venda.

“Depois de um julgamento breve, a diretoria do shul recebeu uma ordem de despejo, que teria de ser cumprida em um certo prazo. Se não obedecesse, a polícia seria acionada. A data se aproximava, e não sabíamos o que fazer. Resolvi ir ao Rebe, e pedir-lhe uma berachá. Eu achava que era a única solução.

“Quando descrevi a situação ao Rebe, ele disse: ‘Não sei o que você está perguntando. Meu sogro lhe disse claramente que um shul é um shul. Sendo assim, não se pode transformar um shul num açougue. Vá para casa tranqüilo e, se D-us quiser, tudo vai dar certo.’ Animado com a berachá, voltei para casa. Eu sabia, devido à experiência anterior, que as palavras do Rebe se realizariam.

“Os dias foram passando, e a data se aproximava. Parecia não haver a menor chance para nós. Na noite anterior à data estipulada, resolvi levantar-me muito cedo, na manhã seguinte, e ir ao shul. Antes de ir para a cama, eu disse o Shemá e rezei para Hashem ter pena de nós, a fim de que nada de mal nos acontecesse. E me deitei, mas não consegui dormir. Revirei-me na cama a noite toda, e só consegui cochilar algumas horas, de madrugada. E tive um sonho, que jamais esquecerei.

“No sonho, fui ao shul, e vi o Rebe Rayats, de abençoada memória, sentado na cadeira à cabeceira da mesa – a cadeira em que não deixo ninguém sentar. De pé, ao lado dele, estava o Rebe de Lubavitch. Ele disse, ‘Não se preocupe. Hashem vai fazer com que tudo dê certo.’ Em seguida ele apontou para o Rebe Rayats. ‘O Rebe lhe disse que um shul é um shul. Para que se preocupar? Não se preocupe. D-us vai cuidar para que tudo dê certo.’

“Levantei-me espantado. O Rebe Rayats estava lá, embora tivesse falecido dez anos antes! Eu ainda estava maravilhado com essa visão extraordinária, quando acordei. Vi a luz do sol, através da janela, e percebi que já era tarde. Vesti-me correndo, e poucos minutos depois, já estava na rua, correndo para o shul, o mais rápido que eu podia. Ouvi gritos, à distância. Uma multidão se juntara diante do shul, e as pessoas estavam discutindo, em altas vozes, com os policiais, que tinham bloqueado a entrada. Meus olhos encheram-se de lágrimas quando vi que já tinham começado a retirar os móveis. Parecia que estava tudo perdido. Foi quando algo dramático aconteceu.

“Numa rua próxima, na loja grande do açougueiro, um lustre soltou-se repentinamente do teto, caindo-lhe sobre a cabeça! Ele desmaiou. Chegou uma ambulância, com médicos e equipamentos. Cuidaram do açougueiro e, poucos minutos depois, ele recuperou a consciência. Quando conseguiu falar, suas primeiras palavras foram, ‘Por favor, parem de esvaziar o shul.’ Quando a polícia chegou ao local, o açougueiro admitiu que fizera acusações falsas contra a administração do shul. Ele tinha, de fato, recebido todo o pagamento pela antiga loja.

“‘Fiz algo muito errado, e fui castigado por isso,’ disse. A polícia parou imediatamente de esvaziar o shul, e foi embora.

“Agora você entende por que não deixo ninguém sentar na cadeira à cabeceira da mesa.” Disse Rabi Rabinowitz, ao finalizar sua história espantosa. “A imagem do Rebe Rayats sentado naquela cadeira ficará para sempre diante dos meus olhos.”

(Do livro “The Rebes” Rabbi Yosef Yitschak Schneersohn of Lubavitch, Mayanot/Chish, Kfar Chabad, Israel)

 

Reimpresso com permissão do

“Likrat Shabat on line”

da Yeshivá Tomchei Tmimim

 

 

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