Em 1995, uma senhora idosa elegantemente trajada entrou no escritório do Rabino Yakov Biederman, emissário do Rebe na Áustria. Apresentou-se como Marguerite Kozenn-Chajes, cantora de ópera aposentada, e primeira emissária do Rebe de Lubavitch em Viena! “Sei que o senhor acha que é o primeiro do Rebe aqui”, gracejou, “mas de fato, sou eu!”
A Senhora Kozenn-Chajes começou sua história. Seus ancestrais foram os santos Vishnitser rebes. Em sua juventude, deixou seu lar em Czernowits e foi para Viena, onde acabou tornando-se uma famosa cantora de ópera.
A Senhora Kozenn-Chajes atuou durante a década de ’30 no Salzburger Festspiele. Quando o exército alemão invadiu a Áustria e a conquistou, todos os artistas judeus foram proibidos de apresentar-se. De algum modo, a Senhora Kozenn-Chajes passou despercebida e chegou a cantar no Festspiele de 1939. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, amigos conseguiram contrabandeá-la para a Itália, e ela conseguiu pegar o último navio para os Estados Unidos. Ela e seu marido, descendente do famoso Maharats Chajes, fixaram residência em Detroit, Michigan.
Anos passaram-se. E a Senhora Kozenn-Chajes teve a oportunidade de ter uma audiência particular com o Lubavitcher Rebe. “Entrei no escritório do Rebe”, contou ao Rabino Biederman, “não sei por que, mas pela primeira vez, desde o Holocausto, senti que podia chorar. Como tantos outros que perderam todo mundo, eu jamais chorara. Sabíamos que se começássemos a chorar, talvez jamais conseguíssemos parar. Comecei a soluçar como um bebê.
“Contei tudo ao Rebe: sobre minha infância inocente, de como saí de casa, tornei-me uma estrela em Viena, apresentei-me diante de Hitler, fugi para os Estados Unidos, fiquei sabendo do assassinato de meus parentes e amigos. Também mencionei que tinha muita vontade de visitar Viena. O Rebe pediu-me que antes de viajar o visitasse novamente.
“Poucos meses depois, antes de ir a Viena, fui ao Rebe. Ele me pediu para visitar duas pessoas em Viena, e lhes transmitir lembranças dele. A primeira delas era o rabino-chefe de Viena, Rabi Akiva Eisenberg e a segunda era um professor universitário judeu, Dr. Frankl, na Unversidade de Viena. O Rebe pediu-me para dizer-lhe em seu nome para que não desistisse. Que ficasse forte e continuasse seu trabalho com entusiasmo e vigor. Se ele continuasse forte, venceria. O Rebe falou assim durante bastante tempo.
“Quando cheguei a Viena, foi fácil encontrar o Rabino Eisenberg, mas encontrar o professor foi muito mais complicado. Quando cheguei à universidade informaram-me que há duas semanas ele não aparecia lá e negaram-se a fornecer informações mais detalhadas. Resolvi ir até a casa do professor.
“Uma mulher abriu a porta. Perguntei se o professor estava em casa. Instantes depois, um homem de meia idade foi até a porta. Parecia muito tenso e fiquei muito constrangida. ‘Trago lembranças do Rabino Schneerson, do Brooklyn, Nova York’, disse-lhe.
“‘Quem é ele?’ Perguntou impaciente.
“‘O Rabino Schneerson pediu-me para dizer-lhe em seu nome para que o senhor não desista. Fique forte e continue seu trabalho sem vacilar, e vai sair vitorioso. Não se desespere. Tem de prosseguir com confiança, ele prometeu que o senhor vai ter muito sucesso.’
“O professor olhou para mim como se tivesse visto um fantasma. Arregalou os olhos, incrédulo. Começou a chorar, soluçando como uma criança. Eu não estava entendendo nada. Só vi que ele chorava sem parar.
“‘Não acredito!’ Dizia Dr. Frankl e fez sinal para que eu entrasse. Acalmou-se um pouco e disse: ‘Esse rabino do Brooklyn sabia exatamente quando mandá-la para cá. É um milagre! Você me salvou!’
“‘Sobrevivi aos campos de morte alemães’, exclamou o Dr. Frankl, ‘e até consegui manter meu espírito, lá. Mas não estava conseguindo sobreviver às zombarias e insultos impiedosos de meus colegas, que solapavam toda e qualquer tentativa que eu fizesse para seguir em frente.’ Na época, as idéias de Freud reinavam supremas e as do Dr. Frankl eram desprezadas como noções não científicas de consciência, fé e dever. Os alunos que freqüentavam suas aulas não eram bem vistos. ‘Eu estava esgotado e melancólico. Fiquei deprimido e resolvi pedir exoneração. Comecei a redigir meu pedido de demissão.
“‘E de repente aparece uma mulher, dando-me lembranças de um Rabino Schneerson de Nova York! Alguém no Brooklyn, nada mais nada menos que um Rebe Chassídico, está sabendo sobre mim! Sabe de minha dificuldade! É um milagre!’
“De fato”, concluiu a Senhora Kozenn-Chajes, “as palavras do Rebe realizaram-se. Dr. Frankl deu continuidade a seu trabalho e pouco tempo depois obteve uma cátedra na Universidade. Seu livro, “Man’s Search for Meaning” (“Em Busca de Sentido: um Psicólogo no Campo de Concentração”) foi traduzido para o inglês e ele tornou-se um dos mais famosos psicólogos da geração. Tudo isso aconteceu há uns 40 anos. Portanto, Rabino Biederman”, disse sorrindo a Senhora Kozenn-Chajes, “fui emissária do Rebe em Viena muito antes de o senhor chegar aqui.”
O Rabino Biederman ficou curioso. Começou a investigar e descobriu que Victor Frankl ainda estava vivo e, de fato, enviava uma doação anual para o Beit Chabad de Viena! Rabino Biederman telefonou para ele, apresentou-se e perguntou se recordava-se das lembranças que Marguerite Kozenn-Chajens lhe dera do Rabino Schneerson do Brooklyn, cerca de 40 anos antes.
“Não me lembro do nome da mulher, mas obviamente me lembro daquele dia! Jamais esquecerei. Minha gratidão ao Rabino Schneerson será eterna”, respondeu emocionado. “Foi por isso que quando Chabad-Lubavitch se estabeleceu aqui em Viena, tornei-me um dos doadores.”
Em 2003, Rabino Dr. Shimon Cowen, um chassid Lubavitch da Austrália, que também é especialista em Frankl, foi a Viena visitar seu genro e sua viúva, que é católica, e cujo nome de solteira é Eleonore Katharina Schwindt. Conversaram bastante e, quando Cowen perguntou sobre as práticas religiosas de Frankl, ela lhe mostrou um par de tefilin e tsitsit. “Meu finado marido colocava isso diariamente”, disse-lhe. “E também dizia Salmos, de noite na cama.”
Agradecimentos aos rabinos Yosef Y. Jacobson, Tuvia Bolton, Dovid Sholom Pape.
Traduzido de “L’Chaim Weekly”
http://www.lchaimweekly.org/lchaim/#caption9
Nota da tradutora: Victor Emil Frankl (1905-1997) foi um psicólogo e psiquiatra austríaco, fundador da escola da Logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência, uma das dissidências da psicanálise freudiana e uma das muitas teorias sobre a motivação básica do comportamento humano. Passou por quatro campos de concentração entre 1942 e 1945. Durante os anos de cativeiro, Frankl observou o comportamento humano e concluiu que esse interesse o salvara e que os companheiros de prisão que tinham uma esperança e davam um significado à vida predominavam entre os sobreviventes.
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