BS’D

A história que vou contar é verdadeira. Os nomes não foram modificados, seja para proteger alguém ou por qualquer outro motivo.
Na noite da terça-feira, 23 de Shevat de 5775 (Janeiro de ’95), em Níjni Novgorod (Rússia) houve uma enorme tempestade de neve. Meu parceiro, Simcha Backman, estava em Moscou organizando um seminário para o Shabat seguinte. Quando abri os olhos e vi toda aquela neve, resolvi dormir mais um pouco antes de me levantar e ir à sinagoga. Foi quando o telefone tocou e meu dia começou. E que dia!
“Oi, aqui é Nina (a cozinheira do shul). Três tzyganers acabam de entrar no shul. Disseram que o pai deles morreu e eles querem fazer um enterro judaico.”
“Nina”, perguntei, ainda tentando aperfeiçoar meu russo, pensando que ela estava falando de tartarugas, sei lá, “o que são tzyganers?”
“Não dá para explicar por telefone. Se vier para cá vai entender.”
Quando cheguei no shul, vi um tzyganer prá lá de bêbado com seu filho e seu cunhado. Ele era alto e robusto e estava muito bêbado. Disse-me que na noite anterior fora o casamento de seu filho. Depois do casamento, seu pai sentiu-se mal e mais tarde devolveu a alma ao Criador. “Meu pai só queria uma coisa”, disse o bêbado, cujo nome era Paska, “ser enterrado exatamente de acordo com a lei judaica.”
Procurei a palavra tzyganer em meu dicionário russo-inglês. Significa cigano!!! Esses caras morenos, que eu tinha pensado que eram da Georgia ou vizinhanças eram CIGANOS?!
Perguntei: “Mas por que seu pai quer um enterro judaico?”
“Ele era judeu! Seu nome era Beryl, seu pai, Asher, e sua mãe, Rachel. Seu sobrenome era Tzyerulnik.”
Disse-lhes que primeiro eu tinha de rezar e tomar café da manhã. Depois eu iria com eles. Enquanto isso, eles deveriam encontrar um cemitério na cidade que lhes cedesse um lote.
Em Níjni Novgorod há vários cemitérios judaicos, mas são reservados para familiares. Aquele cara não era pobre e disse que estava disposto a gastar cinco limões (gíria russa que significa cinco milhões de rublos) se lhes dessem um lote.
Rezei rapidamente, tomei meu café da manhã e fui com eles para o cemitério. Como as ruas estavam cobertas de neve, levamos uma hora e meia para fazer, de carro, um percurso de meia hora. E nem com todo seu dinheiro conseguiram um lote. Disse-lhes que eu não ia me arrastar com eles para os outros quatros cemitérios judaicos da cidade. E que devíamos ir até sua casa, onde eu faria a tahará (purificação ritual do corpo), e em seguida eles poderiam ir sozinhos procurar um lote.
O costume russo, quando morre alguém, é beber até não poder mais. (Esse também é o costume russo em muitas outras ocasiões). E era isso, exatamente que aquele cara estava fazendo em todo o caminho para o cemitério e para sua casa. Também falou muito. A história que ele me contou me esclareceu sobre a amplidão do exílio, em geral e do exílio russo em particular.
Seu pai, Beryl, nasceu numa família judaica chamada Tzyerulnik, na cidade ucraniana de Charkov. Seus pais pouco sabiam de seu judaísmo tendo, portanto, transmitido muito pouco a seu filho. Durante a Segunda Guerra Mundial, mudaram-se para o Cazaquistão, onde seus pais faleceram. Beryl, por não saber nada sobre ser judeu, apaixonou-se por uma cigana e se casou com ela. Tiveram oito filhos. Vinte e sete anos antes tinha se mudado para Gorky (atualmente Níjni Novgorod e foi lá que descobriu que era judeu.
Conheceu um dos poucos anciãos da cidade, que lhe disse que ele era judeu. E até chegou a levá-lo a um dos minyanim secretos da cidade. Essa foi toda a sua vivência judaica, mas suficiente para despertar aquela alma judia que vivera entre os ciganos, pelo menos para dizer a seu filho que ele queria um enterro judaico.
Fomos até sua casa, no outro extremo da cidade, o que demorou uma hora e meia. Fiquei chocado, novamente, pelo que vi. Dez ciganas e cinco ciganos, vestidos em seus trajes típicos, estavam sentados em torno do pai falecido e comendo frango, bebendo vodka e outras iguarias. Mais um costume russo!
Eu lhes disse que, de acordo com a Lei Judaica, aquilo era uma vergonha para o falecido. Antes que eu pudesse piscar um olho, retiraram tudo. Fiz a tahará e eles me levaram de volta para o shul.
Na sexta-feira de manhã, foram me buscar e fomos para o cemitério. Eles queriam fazer tudo direitinho, de acordo com a lei, de modo que só judeus se ocupariam do enterro. Nada de ciganos. Isso quis dizer que eu e o judeu que estava comigo teríamos de fazer tudo sozinhos. Carregamos o corpo e dissemos todas as rezas apropriadas. Em seguida o enterramos.
De modo que um judeu que durante a primeira parte de sua vida nem sabia que era judeu, e na segunda metade viveu entre ciganos, foi enterrado de acordo com a Lei Judaica. Provavelmente aquela foi a primeira mitsvá que ele cumpriu. Se isso não for exílio, então o que é? Que a memória de Beryl ben Asher seja uma bênção para todos nós.
Que Hashem olhe para Seus filhos com piedade e veja a pureza de uma alma judaica, e nos leve à Redenção, quando veremos a realização de “os que repousam no pó se levantarão e cantarão.”
Por Eliyahu Schusterman
N’Shei Chabad Newsletter
Adaptado de:
(Inglês)
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