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O HOMEM QUE ODIAVA SUA ESPOSA

Um judeu foi procurar o rabino da cidade para contar-lhe seu problema. “Não sei o que fazer. Odeio minha mulher. Parece que ela sempre faz coisas para me provocar.” Envergonhado, continuou, “Às vezes, até penso em matá-la!” O sábio rabino olhou pensativo para o homem. “Há quanto tempo sente-se assim?”

“Quase desde que me casei”, respondeu o homem. “No começo não era tão mal. Mas quando ela me irrita, acho impossível tratá-la bem. E agora, sonho em livrar-me dela para sempre.”

O rabino coçou a barba e disse, “Sabe, há um jeito de matá-la sem ser considerado responsável!”

O homem arregalou os olhos. Jamais esperara que o rabino fosse seu cúmplice, mas precisava de toda e qualquer ajuda. “Diga-me, rabino, o que posso fazer?”

“Bem”, explicou o rabino ao homem simples, “o Midrash diz que se um homem promete uma grande quantia para caridade e não a paga, seu castigo é que sua esposa falecerá. Tudo o que tem de fazer é comprometer-se a doar para a sinagoga uma grande soma e não pagar! Dentro de um ano, garanto que sua esposa estará morta.”

O homem ficou felicíssimo com a boa sorte de ter um rabino tão compreensível e sábio.

“Mas”, acrescentou o rabino, “você não gostaria que alguém pensasse que você não está pagando o prometido de propósito, para matar sua esposa. Você também não quer que D-us pense isso, não é?”
O homem aquiesceu com a cabeça. “O que devo fazer, rabino?”

“Bem”, principiou o rabino, “para começar, deve tratar sua mulher muito bem, nos próximos meses.”

O homem ficou horrorizado. “Rabino, não consigo tratá-la nem um pouquinho bem porque, como lhe disse, não a suporto. E como o senhor quer que eu seja muito bonzinho com ela?”

“Isso é o mínimo que pode fazer para que as pessoas não achem que você a está matando de propósito, não é?”

O homem fez que sim com a cabeça e o rabino continuou. “Primeiro, compre-lhe um vestido novo. Quanto tempo faz que ela não ganha um vestido novo?”

O homem admitiu que há sete anos, desde que se casaram, a mulher não obtivera um vestido novo.

“E também”, prosseguiu o rabino, “dê-lhe um dinheirinho para gastar.”

O homem revirou os olhos. “Ela sempre se queixa de que não tem dinheiro o suficiente para fazer boas refeições. Mas sei que não passa de desculpa para me chatear!”

O rabino sorriu e acrescentou: “Diga-lhe algo gentil, de vez em quando. Até a elogie em púbico, só para que pensem que você realmente gosta dela, é claro”, acrescentou o rabino em tom conspirador. 

O homem saiu radiante do escritório do rabino. Imediatamente se comprometeu com a doação de uma grande quantia para uma instituição de caridade e começou a contar as horas para o momento em que se veria livre da mulher. Porém, seguiu o conselho do rabino e saiu para comprar um vestido novo para a esposa. Ela, obviamente, não entendeu a mudança do marido. Quando ele também lhe deu uma “mesada”, ela foi ao mercado e comprou boas frutas e verduras, e até um pedacinho de carne. Preparou uma refeição deliciosa para demonstrar sua gratidão.

Semanas se passaram, com o homem riscando os dias no calendário e, ao mesmo tempo, comportando-se decentemente, pela primeira vez na vida, com a esposa.

Dois meses depois, o homem parou de marcar no calendário. Ele e a esposa estavam mais felizes do que nunca, desde seu casamento. Quanto mais agradável era o marido, quanto mais elogiava a esposa e tentava ajudá-la, mais ela tentava agradá-lo de todas as maneiras.

Após seis meses, o marido esquecera totalmente sua conversa e seu “combinado” com o rabino. Quando faltava pouco para completar um ano, lembrou-se da doação prometida e de suas conseqüências, caso não a pagasse. Imediatamente, correu ao rabino.

“Rabino, daqui a pouco fará um ano e ainda não paguei o prometido”, disse o homem, histérico. 

Nu”, disse o rabino, daqui a pouco você terá paz e tranqüilidade. Com que está preocupado?”

“O senhor não está entendendo. Amo minha esposa. É a melhor pessoa do mundo. Faz de tudo para me agradar e eu gosto tanto de fazer coisas para que ela se sinta feliz. Não quero que morra!”

“Puxa, é um problema”, respondeu o rabino. “Então você precisa pagar o que prometeu.”

“Mas rabino, prometi uma quantia imensa, que jamais poderia pagar!”

“Tem de tomar dinheiro emprestado e pagá-lo aos poucos. Vou até lhe dar uma carta de recomendação para alguns fundos de empréstimos sem juros,” ofereceu o rabino. “Afinal de contas, é uma questão de vida ou morte!”

“Nem sei como agradecer-lhe”, disse o marido aliviado. “A vida da minha esposa vale todo o dinheiro do mundo!”

O homem pegou emprestado o dinheiro para pagar o prometido. Devolveu o empréstimo em suaves prestações mensais e foram felizes para sempre.

(Traduzido de “L’Chaim Weekly”, www.lchaimweely.org)

(Reimpresso com permissão do

“Likrat Shabat on line” da

Yeshivá Tomchei Tmimim)

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A MÃE DO ADMOR HAZAKEN

BS’D

Desculpem, realmente evito escrever histórias de memória, pois o Rebe diz que uma história é algo muito sério e delicado, e deve ser relatada com exatidão. Mas não estou mais encontrando a fonte. Não consigo me lembrar em que livro a li. E acho que tem uma lição muito importante para cada mãe judia.  A história é mais ou menos assim:

Certa vez, perguntaram a um dos irmãos do Alter Rebe que mérito tiveram seus pais para terem filhos assim, tão especiais. [O Alter (velho) Rebe é o Rav Shneur Zalman de Liadi, primeiro rebe de Chabad, autor do Tanya e do Shulchan Aruch. E seus três irmãos eram todos rabinos muito importantes.]  Ao que ele respondeu:

“Tudo por mérito de Mamãe.”

[Vale salientar que o pai deles, Rav Baruch era um grande tsakik, um grande sábio, descendente do Rei David e do Rei Shelomô. Sobre ele conta o Rebe Rayats (R. Yossef Yitschak Schneerson), o Rebe anterior, em suas memórias.]

E o irmão do Alter Rebe continuou:

“Para que se tenha uma idéia da importância que Mamãe, nossa mestra, dava à educação judaica de seus filhos, vou relatar um fato:  Papai viajou, certa vez, e ao voltar trouxe para sua esposa, um casaco de inverno muito chique e muito caro. Poucos dias depois, Mamãe percebeu que nosso professor  estava meio desanimado enquanto nos dava aula. Chamou-o de lado e perguntou o que estava havendo. Ele respondeu que desde que  Rav Baruch presenteara a rebetsin com aquele casaco, sua própria esposa (do melamed) não parara de atormentá-lo por ele também não lhe dar um presente assim. Mamãe não pensou duas vezes. Imediatamente, foi até o armário, pegou o casaco e o entregou ao melamed, dizendo: “Leve o casaco para sua esposa. Para mim, o que importa é que você estude com meus filhos com entusiasmo!”

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Mãos Firmes

BS’D

Um judeu idoso apareceu no Beit Chabad do Aeroporto Ben Gurion, em Israel. Foi até o balcão e, quando lhe perguntaram se queria um café, respondeu que aceitaria, desde que o copo estivesse cheio até a borda.

Os chassidim que estavam atrás do balcão concordaram com seu pedido e encheram o copo a ponto de que o menor tremor o faria derramar. E, para espanto de todos, o idoso levantou o copo e, sem derramar uma gota sequer, bebeu.

Ao terminar, o homem sorriu orgulhoso e disse: “Fiz isso para lhes mostrar como seu Rebe é espetacular!” E explicou:

“Anos atrás, eu era o rabino de uma grande sinagoga de Nova York. Tínhamos um minyan diário, aulas, um departamento feminino, bem como um mikvê para as senhoras. Mas como em muitos shuls, os velhos morreram ou se mudaram. A diretoria começou a insinuar que queria fechar a sinagoga, mas eu não concordava.

Ainda havia pessoas que freqüentavam o shul regularmente para rezar e para as aulas e, além disso, as mulheres ainda usavam o mikvê. Certo dia, a mulher que cuidava do mikvê contou-me que quase toda noite o Rebe de Lubatich lhe telefonava perguntando como ela estava e a encorajava em seu trabalho.

“Isso continuou durante vários meses até certa noite, quando eu estava no meio de uma aula de Talmud, no shul. A mulher que cuidava do mikvê entrou de supetão na sala e gritou, quase histérica, que alguém tinha trancado a porta do mikvê com um cadeado bem grande!

“Cheguei à conclusão que devia ter sido a diretoria, na tentativa de desencorajar as mulheres, mas eu não sabia o que fazer.

“Não sei o que deu em mim, mas corri até meu carro, achei uma ferramenta, corri de volta ao shul e comecei a golpear o cadeado. Cerca de meia hora depois, consegui abrir à força o cadeado e as mulheres puderam entrar.

“No dia seguinte, a atendente do mikvê contou-me que o Rebe lhe telefonara na noite anterior e, quando ela lhe contou o que eu fizera, ele disse: ‘Abençoadas sejam as mãos que romperam aquele cadeado.’

“É isso que eu quis lhes mostrar”, concluiu o rabino. “Hoje tenho mais de 91 anos de idade, e minhas mãos estão firmes graças àquela bênção.”

Por Rabino Tuvia Bolton de www.ohrtmimim.org/Torah

(Traduzido de “L’Chaim Weekly”, www.lchaimweekly.org)

  

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A Ajuda

 

O grande sábio, Rabi Yoel Sirkis, tinha um discípulo que era muito rico e generoso. Esse aluno nada escondia de seu mestre, com quem se aconselhava sobre todos os assuntos.

Certo dia, um taberneiro de uma aldeia procurou o rabino e relatou-lhe sua angústia: há anos sustentava-se honradamente de uma taberna, arrendada do pôrets (senhor feudal). De repente, apareceu outro homem, pedindo para arrendar a taberna, o que o deixaria sem meios de vida. O pôrets estava inclinado a aceitar a proposta e o locatário estava desesperado.

“Procure meu aluno, o milionário”, aconselhou o rabino, “e peça-lhe, em meu nome, que interceda por você junto ao pôrets. Estou certo de que, devido a sua riqueza e a seus diversos negócios, o pôrets levará em conta seu pedido e o estabelecimento ficará com você.”

O taberneiro seguiu o conselho do rabino e dirigiu-se à casa do discípulo abastado. Este preparava-se para viajar à grande feira anual que teria início no dia seguinte, e qualquer atraso na viagem poderia causar-lhe grande prejuízo. O rico consolou-o prometendo conversar com o pôrets sobre o assunto assim que voltasse da feira.

O taberneiro não se acalmou. “Até você ir e voltar posso perder minha fonte de sustento. O que será de mim, de minha esposa e de meus filhos?!” Expressou sua preocupação e lançou ao ricaço um olhar suplicante.

O abastado, porém, não se deixou levar pelo desespero do homem. “O sustento do homem é determinado em Rosh Hashaná, e ninguém pode tirar nada do que pertence a outro”, disse o abastado, na tentativa de fortalecer sua fé e confiança.

Quando o taberneiro viu que o rico não tinha a menor intenção de modificar seus planos, agradeceu-lhe a boa vontade de ajudá-lo na volta, e foi para casa com o coração pesado. Em casa, sua esposa esperava. Ela, tanto quanto ele, estava preocupada com o sustento da família. Ele contou-lhe sobre o conselho do rabino e sobre a promessa do ricaço, de que falaria com o pôrets após a feira. A mulher, tal como o marido, não ficou tranqüila. Caiu no choro e gritou para o marido: “Incompetente! Como pôde aceitar um desprezo desses?! Por que não exigiu que fosse imediatamente falar com o pôrets?!”

Houve muita tensão e briga na casa do taberneiro, nos dias que se seguiram. Mas acabaram passando, e tudo ficou bem. O rico regressou da feira e, após uma breve conversa com o pôrets a taverna permaneceu na mão do antigo arrendatário.

Passaram-se os anos e o rico faleceu. Todos da cidade foram ao seu enterro e choraram a perda daquele homem generoso, que jamais recusara-se a ajudar, com toda a boa vontade, aos necessitados. O próprio sábio, Rabi Yoel Sirkis, fez um discurso comovente sobre seu querido aluno.

Uma semana depois, o aluno apareceu a seu mestre, num sonho. Sua história, testemunho do mundo da verdade – foi perturbadora:

“Quando cheguei ao tribunal celeste, encontrei algumas almas trêmulas e preocupadas, à espera do veredicto. Entre elas havia almas de pessoas que eu conhecia. Uma delas, por exemplo, era um certo açougueiro, que foi negligente em seu trabalho e fez com que muitos tropeçassem.

“Seu julgamento teve início. A cena era apavorante. Cães e animais diversos surgiram de todos os lados, acusando-o de roubar sua comida e vendê-la aos judeus. De repente, ouviu-se uma voz que lhe falava em altos brados – ‘Como ousou dar nevelot e trefot (carne não kasher) para meus filhos comerem?!’

Mas naquele instante, apareceu um anjo defensor dizendo que o açougueiro já reconhecera seu erro, ainda em vida, e, inclusive, fizera teshuvá (arrependera-se e voltara a D-us). Doou todos os seus bens para tsedaká e jejuou até purificar sua alma, chegando ao nível de báal teshuvá (penitente). O tribunal celeste o considerou inocente e o enviou ao palácio dos baalê teshuvá.

“Quando chegou minha vez, meus joelhos tremiam. Meu julgamento foi rápido e fui declarado inocente. Imediatamente uma fileira de anjos me levou ao Gan Êden (Paraíso).

“Quando cheguei aos portões, postou-se no meu caminho um anjo, impedindo-me a passagem. ‘Quem é você e por que está bloqueando meu caminho?!’ – Perguntei espantado. ‘Sou o anjo criado a partir da bondade que você fez ao taberneiro aldeão, quando intercedeu por ele junto ao pôrets’, respondeu o anjo. Diante de tal resposta, meu espanto aumentou. ‘Como pode um anjo de bondade querer me atrapalhar?’

“O anjo suspirou e disse: ‘Embora você tenha feito uma boa ação para esse judeu, sabe o sofrimento que causou a ele e a sua família, durante o tempo em que esteve na feira? Pensou nas lágrimas derramadas por sua causa? Nas brigas e nos gritos que poderiam ter sido evitados se você tivesse agido imediatamente e não tivesse adiado sua conversa com o pôrets?’

“Por mais que eu argumentasse e me justificasse, de nada adiantou. ‘O favor que você fez para o taberneiro foi prejudicado, e para poder entrar no Paraíso você precisa corrigir essa falha’, falou o anjo avisando-me que eu precisaria esperar na porta do Gan Êden o mesmo número de dias que passei na grande feira, causando angústia ao taberneiro e a sua família.”

Algum tempo depois, o sábio Rabi Yoel Sirkis contou essa impressionante história aos habitantes de sua cidade e concluiu dizendo: “Disso aprendemos até que ponto temos de ser cuidadosos com cada mitisvá, e não retardá-la. Muito mais, ainda, quando se trata de uma mitsvá de que depende a vida de outro judeu – devemos ser ágeis e rápidos.”

(Traduzido de “Sichot Hashavua”,http://chabad.org.il)

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O Julgamento

 

 

Certa vez, Rabi Mordechai de Nadvorna, um grande líder chassídico, estava em uma longa viagem de trem com muitos de seus discípulos. O trem parou na cidade de Niridihous, onde deveriam fazer baldeação a fim de chegar a seu destino. Esperavam há vários minutos quando, de repente, uma jovem não-judia começou a gritar e chorar, atraindo a atenção tanto dos passageiros quanto da polícia. Ao que parece, roubaram-lhe a carteira, onde estavam seu dinheiro e a passagem de trem.

Em geral, era melhor que os judeus não se intrometessem nos assuntos dos não-judeus, principalmente nesse caso, em que a polícia procurava suspeitos. Foi, portanto, meio estranho quando Rabi Mordechai voltou-se a um dos mais jovens de seus chassidim e o mandou ao guichê comprar uma passagem para a mulher. Disse ao chassid que lhe desse também algum dinheiro para a viagem, sem dizer uma palavra sobre de onde vinha a pecúnia.

O chassid obedeceu e a mulher, espantada, ficou literalmente muda de gratidão. Passaram-se quinze anos. O chassid casou-se e teve filhos, o santo Rebe faleceu e o incidente foi totalmente esquecido.

O chassid tornara-se um bem sucedido empresário e tinha até amigos não judeus em altos postos. Certa manhã, recebeu uma intimação para apresentar-se em juízo, acusado de fraudar o governo. As acusações eram obviamente falsas, estava na cara que as testemunhas tinham sido pagas, mas isso em nada ajudava. Percebeu, de repente, que não tinha nenhum amigo verdadeiro, uma vez que ninguém estava disposto a auxiliá-lo. Correu de escritório em escritório e obteve as mesmas declarações e desculpas solidárias e vãs. Finalmente, contratou um advogado, rezou a D-us por um milagre e dirigiu-se ao tribunal.

A audiência durou menos de uma hora. Foi declarado culpado de todas as acusações e deveria ser detido até o julgamento. O chassid ficou desesperado. Pagou uma fiança e começou a procurar um advogado melhor. Mas nenhum quis aceitar seu caso.

Por falta de opção, resolveu viajar a Budapeste, onde morava o juiz que deveria julgar seu caso, na tentativa de encontrá-lo. Talvez conseguisse convencê-lo de sua inocência. Rapidamente arrumou sua mochila, levou consigo uma grande quantia em dinheiro e pegou o próximo trem.

Em Budapeste o chassid teve mais uma surpresa desagradável. Descobriu que o juiz era um anti-semita fanático. Não havia a menor possibilidade de que ele chegasse a olhar para um judeu, muito menos falar, e é óbvio que não teria a menor pena de um judeu.

Mas o chassid não se deixou abater, pois “tudo o que D-us faz é para o bem”, lembrou-se. De modo que deu umas voltas pela cidade, conversando com as pessoas, até que bolou um plano de ação. O chassid descobriu que a esposa do juiz adorava bordados finos, principalmente toalhas de mesa. Compraria a toalha mais cara que encontrasse e apareceria à sua porta, como se fosse um vendedor. Em seguida, se ela se interessasse, lhe ofereceria a toalha de mesa como presente e lhe pediria que tentasse influenciar o marido a seu favor.

Era um plano audacioso, e até meio bobo; ela poderia muito bem denunciá-lo à polícia. Mas não tinha outro jeito. O chassid passou a manhã toda procurando o mais primoroso bordado que houvesse em Budapeste até que, finalmente comprou uma toalha de mesa caríssima, realmente elegante, com guardanapos combinando. Dirigiu-se rapidamente à casa do juiz, tentando manter a calma. Subiu a escadaria que levava à porta, fechou os olhos, disse uma prece e bateu.

Foi a própria esposa do juiz quem abriu a porta. Olhou para ele de um jeito estranho. Ele tentou começar sua oferta de vendedor mas as palavras simplesmente não saíam. Ele tremia, paralisado de medo. De repente, a mulher deu um grito e desmaiou!

O primeiro impulso do chassid foi correr. Se ficasse lá seria acusado de alguma coisa. Mas se corresse e fosse pego, seria pior ainda!

Enquanto isso, o juiz ouviu o barulho e chegou correndo. Quando viu o chassid, espantou-se também. Baixou-se para cuidar da esposa, que recuperou a consciência, e perguntou-lhe: “Você está bem, Greta? O que houve?”

Ela abriu um olho, olhou em torno e, finalmente, apontou para o judeu. “Yorik, Yorik!” disse ela, levantando-se. “Lembra-se que lhe contei sobre cerca de quinze anos atrás, na estação de trem de Niridihous, quando perdi minha passagem e meu dinheiro e veio um anjo e me salvou? Bem, o rosto deste judeu… ele é a cara daquele anjo! É ele!”

Quando o juiz percebeu que aquele era o homem que salvara sua esposa, seu rosto mudou totalmente. Convidou o espantado judeu para entrar e lhe ofereceu uma recompensa. Quando soube do motivo da visita, prometeu-lhe um julgamento justo. É óbvio que o chassid foi absolvido de todas as acusações.

(Traduzido de “L’Chaim Weekly”, www.lchaimweekly.org)

Reimpresso com permissão do “Likrat Shabat on line” da Yeshivá Tomchei Tmimim. 

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A maldição do tsadik oculto e a berachá do Rebe Shlita

Reb Leib Friedman contou-me, certa vez, a seguinte história impressionante:

O Rosh Yeshivá da Yeshivá Chayê Olam, em Jerusalém, sofreu, durante muitos anos, de problemas nas pernas. A doença foi piorando, até que ficou preso à cama. Os médicos insistiam que uma perna deveria se amputada. Se não adiantasse, a outra teria de sê-lo também. 

Em 1954, um de seus filhos casou-se. Centenas de rabinos e alunos de yeshivá estavam presentes no casamento. O Rosh Yeshivá pediu para ser levado ao salão numa maca, para participar do feliz evento.

Durante a comemoração, várias pessoas fizeram discursos, oferecendo palavras de Torá e abençoando os noivos. O Rosh Yeshivá também desejava falar. Como estava por demais fraco, não conseguindo nem mesmo se sentar, pediu silêncio absoluto, para que suas palavras fossem ouvidas. Quando todos calaram-se, iniciou sua história:

“Quando eu era jovem, fui para a yeshivá na cidade de Stuchin. Éramos trinta em toda a yeshivá, cujo local de estudo era a sinagoga local.

“Em Stuchin vivia um bêbado, a quem todos chamavam de ‘Itche Der Shiker’. Itche era famoso por seu mau hábito de beber até cair, acordar e beber de novo, e adormecer novamente. Ninguém sabia onde Itche morava. De fato, ninguém queria nem saber. Seus únicos amigos eram as crianças, que lhe falavam durante os raros momentos em que estava acordado. Itche encontrava-se quase sempre na sinagoga, onde os alunos da yeshivá também passavam a maior parte do tempo.

“Numa noite de inverno, estávamos sentados estudando, como de costume. Itche dormia sobre um dos bancos. De repente, a porta se abriu e entrou um cocheiro, muito nervoso e desesperado. ‘Rápido!’ gritou aos espantados bachurim (rapazes). ‘Vocês precisam me ajudar. Minha carroça carregada acaba de virar em cima do meu cavalo. As rédeas estão enroladas em volta do pescoço do animal. Se não desvirarmos a carroça imediatamente, o cavalo vai morrer enforcado! Por favor, venham me ajudar – não posso faze-lo sozinho’, implorou.

“O homem estava lá parado, enquanto nós discutíamos os prós e os contras de abandonar nossos estudos para ajudá-lo: será que era permitido interromper os estudos? No fim, chegamos à conclusão que negligenciar nossos estudos era um pecado grave demais para arriscar. Ficamos na sinagoga e continuamos a estudar. O coitado do cocheiro saiu irado e amargurado.

“De repente, Itche levantou-se de seu cochilo e disse, ‘Bachurim! Vão imediatamente ajudar aquele judeu, antes que seu cavalo morra! Se não forem, nunca mais caminharão sobre suas próprias pernas.’

“Eu lhe disse brincando: ‘Itche, desde quando você decide questões haláchicas?’ Ele me ignorou e não disse nada. Cerca de meia hora mais tarde, o desesperado cocheiro voltou, implorando, em termos mais enfáticos ainda, que fôssemos ajudá-lo. Procurara ajuda em toda parte, mas não encontrara ninguém que pudesse faze-lo. Tivemos mais uma discussão sobre se devíamos ou não ir, e dessa vez chegamos à conclusão que era, de fato permitido. Saímos da sinagoga e seguimos o cocheiro, mas chegamos tarde demais. O cavalo já estava morto.

“No dia seguinte, na sinagoga, Itche me chamou pelo nome. Eu ainda não tinha chegado, mas assim que entrei meus colegas me disseram que Itche queria falar comigo. Eu o encontrei no seu banco de sempre e lhe indaguei o que queria. ‘Ouça,’ disse. ‘Tenho algo a lhe pedir. Hoje à noite vou morrer, e não quero estar só. Gostaria que fosse à minha casa e estivesse comigo quando minha alma partir.’

“Comecei a rir. Pensei que estivesse apenas brincando, mas ele repetiu o pedido. Perguntei onde morava, e ele descreveu uma velha ruína na periferia da cidade, que lhe servia de casa.

“Quando anoiteceu, resolvi que eu bem que poderia ir à casa de Itche, pois estudaria lá do mesmo modo que na sinagoga. Peguei minha Guemará e me dirigi à cabana de Itche.

“Quando lá cheguei, encontrei Itche deitado numas tábuas, dormindo. Sentei-me num caixote quebrado, abri a Guemará e comecei a estudar. ‘O que estou fazendo aqui?’ pensei comigo mesmo, após várias horas. ‘Como me permiti cair numa dessas?’ Resolvi ir embora, mas assim que me levantei, Itche acordou. ‘Não vá embora!’ disse. ‘Volte a sentar. Vou morrer exatamente às quatro horas da manhã. Quero que diga à Chevra Kadisha que desejo ser enterrado junto ao Rabi fulano de tal.’ Itche citou um importante erudito, um tsadik e gaon que estava enterrado no velho cemitério judaico.

‘Por que está dizendo essas asneiras?’ falei. ‘Você nem ao menos põe tefilin, e quer ser enterrado junto de um tsadik desses?’

‘Por que você está dizendo que eu não ponho tefilin?’ Itche disse. ‘Lá no canto há um baú. Olhe lá dentro e encontrará meus tefilin.

“Fui até o baú e o abri. Para meu grande espanto encontrei um belíssimo par de tefilin, kasher acima de todas as exigências da halachá. Se eu não os tivesse visto com meus próprios olhos, jamais acreditaria que pertencessem a Itche. ‘Mas mesmo que eu diga à Chevra Kakisha onde você quer ser enterrado, não vão me escutar,’ protestei. ‘Debaixo do baú  com os tefilin há uma caixinha,’ disse Itche. ‘Lá você vai encontrar todos os meus escritos e manuscritos. Se os mostrar à Chevra Kadisha, ela atenderá ao meu pedido.’ Abri a caixa e examinei seu conteúdo. Uma rápida olhada mostrou vários tratados esotéricos cabalísticos, contendo conceitos, muitos dos quais me eram incompreensíveis. Uma coisa, porém, era certa: o homem que jazia naquela decrépita cama de madeira era um tsadik oculto.

“Exatamente às quatro da manhã ele expirou. Depois que ele morreu, corri imediatamente para falar com o Rav e a Chevra Kadisha, conforme sua orientação. Contei-lhes a história toda, e levei comigo a caixa com os manuscritos para apoiar minhas palavras. Havia apenas um problema: a Chevra Kadisha afirmava que não havia mais lugar no velho cemitério. Há muitos anos os mortos da cidade estavam sendo enterrados no novo cemitério, por falta de espaço no  velho. Contudo, fomos verificar. Ficamos chocados ao descobrir que realmente havia lugar para Itche ser enterrado – bem ao lado do rabino que ele mencionara!

“A cidade inteira ficou em polvorosa com a história incrível e espantosa. Fizeram para Itche um grande e pomposo funeral, em que estiveram presentes a maior parte dos judeus importantes da cidade, que foram prestar-lhe as últimas  homenagens.”

Àquela altura do discurso, o Rosh Yeshivá começou a chorar. Grandes soluços, de cortar o coração encheram o salão do casamento. “Não tenho dúvida”, disse ele ao se recompor, “que meus longos anos de sofrimento e invalidez foram conseqüência direta  da maldição daquele tsadik oculto.”

Ninguém conseguiu conter as lágrimas. Os convidados ficaram com muita pena do Rosh Yeshivá. A alegria do casamento foi esquecida diante da triste história.

Eu estava presente na festa. Durante muito tempo, não consegui tirar a história da cabeça. Como eu me correspondia com o Rebe de Lubavitch, resolvi mencionar o Rosh Yeshivá em minha próxima carta. Pedi ao Rebe para rezar pelo infeliz judeu e lhe dar uma berachá para que recuperasse a saúde.

Pouco tempo depois recebi uma resposta: Diga ao Rosh Yeshivá que ele deve aceitar sobre si o estudo das porções diárias de Chumash, Tehilim e Tanya, conforme instituído pelo Rebe anterior. Além de estudar esses capítulos, escreveu o Rebe, ele deve cuidar para que todos os que se encontram sob sua influência façam o mesmo (o Rosh Yeshivá adquirira um grande número de seguidores, com o passar dos anos). Pelo mérito de “andar no caminho do Rebe anterior,” D-us Todo-Poderoso o abençoará com a habilidade de andar literalmente também, escreveu o Rebe.

Fui imediatamente visitar o Rosh Yeshivá, para mostrar-lhe a carta. Ele ficou absolutamente submisso. Ficou tão feliz e empolgado, que beijou o pedaço de papel. Como a carta era endereçada a mim, pedi que me devolvesse, mas ele implorou que a deixasse com ele, ao menos temporariamente, o que fiz.

Cerca de seis meses depois, quando de minha próxima visita ao Rosh Yeshivá, ele estava sentado à sua escrivaninha. Os médicos já não falavam em amputação, falavam apenas de seu progresso e reabilitação. E seu estado continuou a melhorar.

Quando a história do Rosh Yeshivá tornou-se mais conhecida, muitos chassidim foram a Jerusalém, falar com ele pessoalmente. Ele pediu a cada visitante que estudasse as porções diárias de Chumash, Tehilim e Tanya, por causa dele, para assegurar-lhe saúde duradoura.

Do livro Extraordinary Chassidid Tales, do Rabino Rafael Nachman Kahan, Vol. 2, págs. 65-71. 

Reimpresso com permissão do “Likrat Shabat on line” da Yeshivá Tomchei Tmimim.

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O Chassid que foi Dispensado do Exército

O chassid, Reb Ozer Winikorsky za’l, precisava passar pelas sete fogueiras do Guehenom, por onde tinham de passar todos os que se apresentavam para o serviço militar. Apresentou-se cinco vezes diante das autoridades de convocação, e cada vez que precisava aparecer diante do departamento médico, ficava tenso e apavorado.

Procurou o Rabi Levi Yitschak (pai do Rebe) e pediu sua bênção e orientação, para salvar-se das garras dos que conspiravam contra ele. Percebendo a aflição e o sofrimento do chassid, Rabi Levi Yitschak deu-lhe uma orientação detalhada do que deveria fazer a fim livrar-se de seus problemas. Falou-lhe o dia exato em que devia apresentar-se, a hora, e a rua por onde deveria chegar, que capítulos de Tehilim deveria dizer antes de ir, e quantas moedas deveria dar para tsedaká. Disse-lhe, inclusive, que ao chegar à porta do escritório do Serviço Militar, pensasse no Nome de D-us, e só depois se apresentasse. Deu-lhe sua bênção e sua promessa de nada de mal lhe ocorreria. Pediu-lhe também que depois voltasse a vê-lo, para contar tudo o que ocorrera.

“Quando lá cheguei” – relatou Reb Ozer – “após fazer tudo conforme a orientação do Rabi Levi Yitschak, entrei na grande sala onde havia várias mesas ordenadas. Ao lado de cada mesa estava sentado um médico, cada médico tinha sua especialidade, e sua função era examinar o candidato, única e exclusivamente na área de sua especialização. Cada médico estava encarregado de uma área da medicina, de modo que o candidato deveria passar por todos aqueles doutores, para que não pudesse enganar quanto a seu verdadeiro estado de saúde.”

“Fui cuidadosamente examinado por todos aqueles médicos, e cada um escreveu seu relatório. Quando, finalmente, cheguei ao funcionário que deveria me dar o resultado final – fiquei surpreso quando ele me olhou penalizado e perguntou: ‘O que há com você, infeliz? Cada um dos médicos encontrou uma doença!’”

“Deste modo saí de lá como inapto, e fui dispensado do Serviço Militar!” –Reb Ozer concluiu seu relato do milagre pessoal que lhe ocorreu pela berachá de Rabi Levi Yitschak.

(Do livro “Toledot Levi Yitschak”, Vol. I)

Reimpresso com permissão do “Likrat Shabat on line” da Yeshivá Tomchei Tmimim

 

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Três Respostas para Três Pessoas

História

Três Respostas para Três Pessoas

Na cidade de Minsk havia três homens. Um deles era um comerciante que ganhava bem, mas quando fazia a contabilidade da receita e das despesas de sua loja, via que faltava muito dinheiro de sua renda.

O segundo era um médico que não tinha de que se sustentar.

O terceiro era um homem rico, mas que não tinha filhos.

Certa vez, o lojista falou ao médico e ao abastado: “Que tal se viajarmos ao Rebe, o Tsêmach Tsêdek? Quem sabe ele nos abençoe e D-us conceda o que estamos desejando…”

Eles concordaram com a sugestão, e os três viajaram ao Rebe Tsêmach Tsêdek.

O primeiro que entrou no escritório do Tsêmach Tsêdek foi o lojista, que lhe contou sobre o problema que o preocupava.

Disse-lhe o Rebe, o Tsêmach Tsêdek:

– “Sugiro que você vá dormir tarde; mas acordar, acorde muito cedo.”

Ao médico, que entrou em seguida, disse:

– “Você usa roupas simples, e anda a pé; é por isso que as pessoas não respeitam você. Compre um cavalo e uma carruagem, e vista roupas elegantes; deste modo vão chamá-lo, e vão lhe pagar honorários decentes.” 

Ao rico que não tinha filhos, falou:

– “Você e sua esposa devem ir dormir uma noite na hospedaria “Hachnassat Orchim”, onde os pobres dormem.”

Quando voltavam para Minsk, o médico pediu ao lojista um empréstimo de 30 rublos, para comprar o cavalo e a carruagem, como instruíra o Rebe, dizendo que, se tivesse sucesso, lhe devolveria o dinheiro, caso contrário, lhe daria o cavalo e a carruagem. E assim fez o médico. Comprou roupas elegantes, um cavalo e uma carruagem. Quando o chamavam para examinar um doente, dizia que chegaria dentro de meia hora. Chegava de carruagem, e lhe pagavam decentemente pelo tratamento. Depois de um mês, já pôde devolver o empréstimo que recebera do lojista.

O lojista passou a acordar bem cedinho, e só ia dormir muito tarde da noite. Ia à loja, e eis que percebeu uma escavação por baixo da loja, e seus funcionários estavam roubando a mercadoria que estava na loja. Deste modo, o lojista também resolveu seu problema.

O médico e o lojista contaram ao ricaço o que aconteceu com eles. O rico e sua esposa, então, mudaram de roupa, vestiram roupas de mendigos e foram dormir na hospedaria da “Hachnassat Orchim”. Os pobres que lá estavam conseguiram dormir no chão, mas o rico e sua esposa, que não estavam acostumados a isso, não conseguiram adormecer. Quando os pobres acordaram, começaram a falar mal dos ricos da cidade, e também falaram mal dele e de sua esposa, comentando sobre como era pão-duro aquele rico, que não dava nem uma moeda para tsedaká, principalmente sua esposa, que era cruel e não deixava que os pobres passassem pelo umbral de sua porta.

Quando o rico e sua esposa ouviram isso, entenderam por que não tinham filhos.

Das histórias Rabino Chayim Shaul Brok.

(Traduzido de “Otsar Sipurei Chabad”, Vol.XVII)

 Reimpresso com permissão do Likrat Shabat on line

da Yeshivá Tomchei Tmimim.

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BS’D

Não fofocarás (Vayikrá 19,16)

Rebe Baruch de Mezibush casou uma de suas filhas com o filho de um homem que não foi do agrado dos chassidim, pois falavam mal dele. Nenhum dos chassidim, porém, ousava criticar o tsadik. Criaram coragem e pediram ao badchan (humorista) do Rebe, Hershale de Ostropoli, que lhe desse alguma indireta, por meio de uma anedota. Hershale foi ter com ele e lhe disse: – Ouvi dizer que o longo “Vehu Rachum – E Ele é piedoso” casou-se com o “Al Chet – Pela transgressão”… Rebe Baruch entendeu a indireta, mandou chamar os chassidim e lhes perguntou o que tinham ouvido sobre seu machutan (consogro). Contaram-lhe certo fato impuro que contavam sobre ele na cidade de Zitomir. Rebe Baruch perguntou-lhe, então: – Será que vocês sabem o que o tsadik R. Zev de Zitomir (autor de “Or Hameir”) falou sobre isso? Imediatamente um deles lembrou-se que o tsadik R. Zev olhou para fora da janela de sua casa e disse: – Se for mentira, se casará com um dos grandes da geração! Os chassidim se tranqüilizaram e pararam de questionar seu mestre.

(“Sipurei Chassidim”, R. Zevin, Torá)

LEILUI NISHMAT AVRAHAM ZANVIL BEN YAAKOV (DR. ALVIN COHEN) PELO SEU SHLOSHIM

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BS’D

“Quanto mais se sabe, mais se sofre”

                                (Kohelet 1,18)

 

Certa vez, sugeriram ao tsadik de Gur, autor de “Chidushei Hari’m”, um shiduch para um de seus descendentes, e ele concordou com o shiduch. E sua esposa, a rabanit, disse-lhe que após pesquisar, ficou sabendo que os mechutanim (consogros) não estavam à sua altura, e ficou sabendo de outros defeitos no shiduch proposto. Disse-lhe seu marido o Ri’m:

Não é bom saber tudo. Vou lhe contar uma história: Certo melamed (professor de crianças) tsadik, encontrava-se numa aldeia, e toda noite saía de seu quarto ficava fora de casa durante algumas horas. Curioso, seu patrão insistiu com o melamed para que lhe dissesse o que ficava fazendo lá fora. Tanto insistiu, que o melamed viu-se obrigado a contar-lhe que ocupava-se com a conversa das aves. O patrão pediu-lhe que lhe ensinasse a entender a língua das aves. E o melamed respondeu que isso era algo muito difícil, que demandava mortificações, como rolar-se na neve e coisas assim. O patrão falou que faria tudo o que ele mandasse, pois tinha muita vontade de saber isso. O melamed não conseguiu se livrar dele, e depois que o patrão fez tudo o que ele disse, ensinou-lhe a linguagem das aves. Depois disse, o melamed viajou para outro lugar. E o patrão viajou, certa vez, a negócios para um lugar distante, e no caminho pernoitou em uma estalagem. No meio da noite ouviu as aves dizerem que haveria um grande prejuízo em sua casa. Regressou imediatamente e conseguiu salvar sua riqueza. E, várias vezes conseguiu evitar perdas e danos através da conversa das aves. Depois, soube pelas aves que morreria em breve. E ficou profundamente angustiado por não poder evitar a própria morte. De repente, encontrou seu melamed em certa cidade, e relatou-lhe todo o ocorrido. Disse-lhe o melamed: “Por que você insistiu tanto para que eu lhe ensinasse a língua das aves? E para que você precisava saber tanto? Se você não soubesse dos prejuízos que teria, a angústia e os prejuízos expiariam sua morte, e você ficaria vivo. Mas através de seu conhecimento, conseguiu salvar seus bens, mas perdeu a vida. E concluiu o tsadik para sua esposa: “Daí você vê que nem tudo é preciso saber…”

(“Sipurei Chassidim”, Moadim, R. Zevin)

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